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Qual é o papel da educação formal?

October 17, 2011
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Escolhi para começar uma pergunta de G. Conole num rascunho do último capítulo da sua obra mais recente. A resposta comporta necessariamente duas partes: a relativa ao aluno e a relativa ao professor.
Comecemos pelo primeiro: qual é o papel do aluno no mundo mediado e imediato que o rodeia numa sociedade desenvolvida? Uma subdivisão torna-se necessária aqui, porque a problemática pedagógica é diferente para um aluno na faixa etária típica da escolaridade até ao Ensino Superior e um aluno adulto, que regressa à escola com uma experiência de vida concreta como bagagem.
O primeiro tem, necessariamente, que ser mais guiado na sua aprendizagem, enquanto que o segundo será, em princípio, mais autónomo. Em compensação, muito provavelmente o primeiro terá mais à vontade com as novas tecnologias, enquanto que o segundo precisará de mais apoio nesta área. Mas, para equilibrar as coisas, o primeiro terá um sentido crítico menos desenvolvido em relação ao material apresentado, permitindo-lhe uma exploração pouco mais que superficial, enquanto que o segundo tenderá a explorar mais profundamente ideias mais complexas.
O papel do professor terá que ser feito de escolhas cuidadas, fundadas no conhecimento dos alunos e dos seus pontos fortes e fracos. Não é tão importante a aderência a uma determinada escola de pensamento ou prática pedagógicos como a intuição sobre a situação do aluno individual e o modo como ele deve ser estimulado a progredir na sua aprendizagem. Curiosamente, há duas áreas importantes de intervenção: uma delas é a utilização adequada das novas tecnologias; a outra, o trabalho colaborativo entre os próprios estudantes.
No primeiro caso, é necessário tratar de forma diferente os dois tipos de estudantes. É necessário, provavelmente, convencer os estudantes mais novos que as ferramentas que utilizam quase sem esforço podem ser utilizadas para o estudo, a exploração de conhecimentos úteis, a descoberta de um mundo para além do próprio mundo do aluno e dos seus mais próximos. No caso dos estudantes mais velhos, é necessário vencer a resistência à mudança, a inércia natural de ficar com o comprovado, a exploração do desconhecido com um espírito, numa palavra, jovem. Em qualquer dos casos, é necessária a insistência no trabalho colaborativo e no valor de trazer perspectivas (ou experiências de vida) diferentes para a elaboração dos trabalhos comuns.
É preciso, também, para o professor, a atenção ao valor das propostas que vão, necessariamente, ser geradas nestes ambientes colaborativos, já que podem enriquecer com dados concretos formas de actuação a explorar no futuro, assim como mostrar caminhos que devem ser evitados, por conduzirem a becos sem saída do ponto de vista educativo.
E que papel tem a escola no processo? Será uma mera fornecedora de infraestruturas básicas, como salas de aulas, bibliotecas e rede de internet? O problema não é simples porque, se este é o modelo prevalecente para a faixa etária da escolaridade obrigatória e complementar, tipicamente de regime presencial, já não tem uma aplicação muito alargada para os alunos adultos, para quem é muito mais provavel que essa infraestrutura seja a do local de trabalho ou mesmo da habitação.
A questão que se põe neste ponto é a relativa à aproximação a usar com estes dois grupos de estudantes: Será efectivamente necessário separar os grupos em estudantes presenciais e a distância? Será o “e-learning” algo que só está ao alcance dos alunos adultos?
As propostas que foram mencionadas acima, utilização de novas tecnologias na educação e trabalho colaborativo, podem ter lugar em qualquer dos sistemas. Pessoalmente, sou de opinião que o entorno de “e-learning” contém mais promessas de futuro, já que é, naturalmente, um ambiente muito mais aberto ao mundo, muito mais conectado do que o ambiente artifical que é uma escola clássica. Tem em si a possibilidade de acesso a recursos e a pessoas fora do ambiente imediato do aluno (e do professor). Isso implica uma multiplicidade de experiências que nunca seriam possíveis numa escola normal. Também implica o investimento, por parte do aluno, de esforço na construção de um ambiente realmente pessoal de aprendizagem, algo que possui sempre algo de artificial numa escola clássica e que, actualmente, cria uma dualidade, especialmente em alunos jovens, entre aquilo que podem fazer em casa e o que podem fazer na escola.
A maior vantagem a considerar em termos de “e-learning” será a possibilidade de ligação permanente ao processo de aprendizagem, que assim se pode tornar ininterrupto, um com a vida. Inclui em si as sementes da autonomia, do desbravar de caminhos pelo próprio pé, da eliminação dos constrangimentos que a dualidade de comportamentos (escola/casa ou trabalho/casa) pode causar. Inclui também o desenvolvimento de uma ferramenta essencial no mundo moderno: a capacidade de busca autónoma de informação, que leva necessariamente à elaboração e à reflexão sobre a mesma. Inclui, em adição, a produção de frutos do trabalho sucessivamente mais complexos e, tendencialmente, disponibilizados, na própria rede, possíveis fontes para outros utilizarem. Naturalmente, o professor é aqui um guia atento, mas não demasiado presente, algo que é facilitado pela distância relativa. Será este um mundo idealizado, impossível de realizar?

Referências:

C. M. Christensen e H. J. Eyring (2011). The Innovative University: Changing the DNA of Higher Education from the Inside Out. John Wiley & Sons, Inc.

G. Conole (2011). Rascunho do capítulo final de livro não identificado. (acedido em http://e4innovation.com?p=464, a 11/10/2011)

G. Siemens (2005). Connectivism. A Learning Theory for the Digital Age. (acedido em http://www.elearnspace.org/Articles/connectivism.htm, a 11/10/2011)

H. Kanuka e T. Anderson (1999). Using Construtivism in Technology-Mediated Learning:
Constructing Order out of the Chaos in the Literature. Radical Pedagogy 1(2): – (http://radicalpedagogy.icaap.org/content/issue1_2/02kanuka1_2.html)

T. Anderson e J. Dron (2011). Three generations of distance education pedagogy. IRRODL 12(3): 80-97. (http://www.irrodl.org/index.php/irrodl/article/view/890/1826)

4 Comments leave one →
  1. October 17, 2011 10:27 pm

    Muito boa sua reflexão Manuel, aborda questões interessantes. Mas, será possível o ensino por e-learning (tal qual o conhecemos hoje) direcionado ao ensino básico? Embora no passado existiu o ensino a distância direcionado aos mais jovens, vejo com receio se realmente atinge todos os objetivos de uma educação “infantil”.

    • October 18, 2011 6:24 am

      É uma boa pergunta, Débora. Para isso, há a segunda reflexão. Esta é apenas a primeira parte. O papel do professor presta-se mais a elaborar sobre a matéria. Se vou conseguir dar a volta ao texto, isso é outra questão,😉.

      • Rita permalink
        October 19, 2011 1:10 am

        Gostei do seu texto, Manolo, muito mais reflexisivo do que teórico. Ao final do post fiquei pensando se “a capacidade de busca autónoma de informação, que leva necessariamente à elaboração e à reflexão sobre a mesma” não pode ser conseguida por outros meios alé do eLearning comoo, por exemplo, a leitura de um bom livro e interagindo com as pessoas, situações que são facilitadas pelas tecnologias de informação e comunicação. Abs

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