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Uma cosmovisão

May 17, 2011

Começo esta reflexão sobre Cibercultura com uma citação de Pierre Lévy que considero significativa para colocar em contexto a abordagem do autor a esta matéria:

[…]
Com a cibercultura exprime-se o desejo de construir um lugar social, que não seja baseado nem em posses territoriais, nem em relações institucionais, nem em relações de poder, mas na reunião em torno de centros de interesses comuns, no jogo, na partilha do saber, na aprendizagem cooperativa, em processos abertos de colaboração. O apetite pelas comunidades virtuais descobre um ideal de relação humana desterritorializada, transversal, livre. As comunidades virtuais são os motores, os protagonistas, a via diferente e surpreendente do universal por contacto.
[…]
(op. cit., p. 136)

Por este extracto se pode apreciar a esfera ideal que serve de guia de leitura a Lévy, para quem o nível comunal, num sentido global, da rede é o objectivo a atingir. Ao longo do livro, vai conduzindo o leitor com uma argumentação suave em favor da sua perspectiva, sem a impôr. Esta abordagem funciona  muito bem, já que é conducente a uma reflexão sobre as ideias do autor e à formação e apuramento das ideias próprias.

Se há algo que Lévy torna claro desde o início é, seguramente, que a cibercultura não existe num vácuo. Num resumo expedito, socorre-se da evolução histórica do pensamento (da tradição oral à Filosofia Iluminista), do progresso das comunicações (desde os correios privados ao correio e ao telefone modernos) e da evolução da escrita (da invenção da mesma à imprensa, passando por Gutenberg) para mostrar que o longo caminho feito pela humanidade caminhava para este ponto. Cada étapa vai sendo construida sobre a anterior, em transição apenas aparente à escala histórica, mas que constitui uma chave de interpretação necessária à vida naquilo que designa por dilúvio informativo.

As ideias mais importantes que Lévy deixa ao leitor são, na minha opinião, as que se relacionam com a formação da comunidade global, com respeito pelas diferenças, culturais e outras, e com a possibilidade aberta da aprendizagem mútua. A participação do indíviduo está dependente do seu conhecimento, tão profundo quanto possível, sobre a sua própria cultura, ao mesmo tempo que se liga à sua capacidade de abertura para avaliar as ideias de outros, diferentes de si. Sem estas perspectivas equilibradas não é possível a partilha e colaboração entre pessoas independentemente da localização geográfica.

De interesse é também realçar a desvalorização que Lévy faz das condições de acesso à rede, diferentes por razões económicas. Está clara a sua intuição de que essa é uma situação passageira, que o tempo resolverá, tornando sucessivamente mais inclusivo o acesso ao ciberespaço.

Lévy também não tenta definir Cibercultura como algo a atingir, mas torna clara a noção do “caldeirão” onde todas as contribuições se misturam em igualdade relativa de circunstâncias e do qual cada um de nós pode beber para aprender sobre os outros, e sobre nós mesmos no processo.

Há alguma ingenuidade (no bom sentido) na aproximação de Lévy, já que podemos considerar que um espírito aberto e desejoso de aprender é um traço de juventude. Essa leitura torna-se clara nos últimos capítulos do livro, por oposição àquilo que escreve sobre os críticos e sobre o que posso designar como “velhos do Restelo” da rede global.

Em resumo, se há algo que eu posso dizer que ganhei ao ler o livro foi, certamente, que Lévy me ajudou a apurar uma cosmovisão particular do que é a rede e do que se pode fazer com ela. Esta cosmovisão tornou-se, para mim, relativamente independente das condições técnicas e dos meios disponíveis, o que é importante num processo em que nos deixamos assoberbar facilmente pela velocidade da mudança. Isso permite-me uma visão mais distanciada, mais conceptual, mais concentrada nos fins que nos meios, e que me parece mais adequada a uma vivência integral, na medida do possível, do ciberespaço. Fica clara a razão para ser um participante, não apenas um “cliente”, da rede global.

Três aspectos da cibercultura

Open Source

O movimento “Open Source” será o meu primeiro destaque. Como representante global dessa tendência de coalescência espontânea de seres de todas as proveniências, unidos de forma flexível na produção de um objectivo comum, é um exemplo perfeito da formação de comunidade. Do seu labor, aqui entendido como um processo em fluxo contínuo, vem a garantia de que a rede terá sempre disponíveis ferramentas independentes dos poderes político e económico, que assegurem a continuidade da formação de uma comunidade global baseada em princípios de partilha e colaboração.

“PLE”

O conceito de Ambientes Pessoais de Aprendizagem (“Personal Learning Environments”, numa das versões em língua inglesa) é algo que só é possível num ambiente aberto, em que muitos produzem para todos e não há limitação na partilha. Tem por base a formação e valorização individual, auto-estimulada e com custos modestos comparativamente com uma opção de educação formal. Tem também um aspecto que só realça a partilha e fecundação entre diferentes partes das comunidades na rede na formação de inteligência colectiva: o próprio sistema de ensino estuda esse fenómeno difuso e indefinido para se auto-melhorar.

Wikipedia

A Wikipedia é o meu exemplo final. Reune os dois anteriores numa amálgama surpreendente para constituir um repositório universal de conhecimento (numa escala só sonhável para os autores de outra Enciclopédia)  à disposição de todos os que lhe acedam. Está permanentemente em expansão, ao sabor do labor de anónimos que vão modificando e acrescentando o seu conteúdo. Também cresce em qualidade num processo que, potencialmente, converte cada consulta numa aproximação progressiva do conteúdo a um estádio mais coerente e verdadeiro.

Imagem de indígena utilizando um computador portátil na sua cabana

Coda

Em jeito de conclusão, devo dizer que o livro (e o seu autor) se transformaram para mim durante algum tempo em compagnons de route, ajudando a definir melhor o meu próprio caminho. Esta será uma contribuição que desejo fazer minha, com o continuar da reflexão sobre as propostas feitas.
Termino como comecei, com uma outra citação de Lévy, que achei particularmente apropriada:

[…]
O nervo do ciberespaço não é o consumo de informações e serviços interactivos mas a participação num processo de inteligência colectiva.
[…]
(op. cit., p. 210)

Pierre Lévy (1997). CIBERCULTURA. Relatório para o Conselho da Europa no quadro do projecto «Novas tecnologias: cooperação cultural e comunicação». Instituto Piaget (trad. José Dias Ferreira) (281 pp.)

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